Acabo de retornar de um velório. Nada de extraordinário, com todos muito tristes, sobretudo pela idade do morto, acredito. Era jovem, muito jovem, mas não do tipo que acumulava virtudes. Não; este tinha defeitos – era notável mesmo na descida do corpo à cova. Engraçado, em enterros parece que todos perdem seus demônios, mas só parece. Claro estava que alguns, mesmo que poucos, se aliviavam centímetro a centímetro da inexorável descida ao eterno. Outros choravam.
Minha relação com o falecido era próxima, mas não o suficiente para estar na primeira fila. Melhor assim. Não havia sido apresentado à família; eu era mais amigo de amigos mais próximos. Passamos por muitas etapas juntos, e houve épocas em que nos distanciamos brutalmente. Nada de incomum para adolescentes que acham bifurcações e entroncamentos inexplicáveis no labirinto do qual se faz a vida.
Mas eram apenas etapas, apenas fases de silêncio mútuo e compartilhado. Fora essas, a relação travada chegou até a ser íntima, de desabafos. Isso, é óbvio, nas horas mais claras. Nas fases mais lúcidas e certas, mas não retas, pois que a retidão nunca foi algo presente, nem mesmo desejado.
Negávamos a correção, embora pretendêssemos a convivência e a autenticidade dentro de um sistema de adaptação necessário. Hoje eu quero ser livre para o que quer que exija minha liberdade. Quero ser correto para o que careça de correção e quero ser normal quando assim me aprouver. Quero a seriedade em coisas bobas, e a idiotice nas mais sérias, buscando, incansável, a interseção.
O curso de uma história deve ser de acertos. Mas os acertos trazem a face oposta: o erro. O erro é vida, é viver, e assim o acerto. São instantes que fazem o agente pensar e trazem intrínsecas reflexões automáticas de uma vida que passa. Pois a vida passa, e é ela tempo de refletir e aprender. A vida deve nos fazer pensar. Porque um dia a gente morre. Todos morrem. E a morte, seguida de velório, enterro e adeus, é hora que faz apenas os outros pensarem, e nada mais.
O corpo que se vai tapado vê-se estampado na face de cada um dos presentes. Põem-se todos a refletir, a pensar, não no falecido, mas em si mesmos, no que fizeram da vida e no que passarão a fazer, a partir de promessas vãs (a saber, toda pretensa racionalidade, se permeada por emoção, é vã). E assim o que se foi volta a ser presente. Ele se mantém enquanto os outros refletem sobre si, e não sobre ele. Mantém-se enquanto vida, enquanto os outros fazem vida, isto é, no que refletem sobre ela, sobre acertos e erros. Mantém-se enquanto fundamento de reflexão, pois que refletir é viver. Entretanto, essa reflexão cessa rapidamente. É quando o que se foi vai-se de vez; é quando os outros não notam.
O adeus é dado não quando da morte, mas no esquecimento, em seu sentido mais sutil e tênue. É dado quando o que seria perene embarca na fugacidade que o decurso do mundo nos impõe. Tolos são os que se despedem no cemitério. O adeus só é dado depois disso, quando a morte deixa de ser base de reflexão, quando deixa de ser vida. O adeus só é dado por quem é deixado. Quem o deixa mal sabe que se foi.
28.9.09
18.9.09
Corto-me
Cortei fora minhas mãos. Foi no dia em que me encontrei, no dia em que parei de vagar às cabeçadas. Ambas as mãos, as cortei sem sentir. Foi ato espontâneo da vida, do destino, que me quis assim agora. Pouco doeu, pois que mal eram aproveitadas naqueles tempos, e toda verdadeira dor é fruto de fruição interrompida. Já não escrevo mais, agora leio.
Não mais me engana o tato. Ele, que afasta todos de tudo à distância de um braço. Sou mais próximo das coisas, mais próximo do mundo enquanto um só, puro. Pura harmonia, pura melodia. Sinto-me nota soante. Eternamente, sem objeções ou reclames. Nota coesa e linear, embora oscilante, como todo ser que se quer imortal.
Sobram-me os pés, que não são lá muito táteis, é de se assumir, embora tenham utilidades mais fundamentais. São base, mantendo-me ereto enquanto o tempo não me curva, ou a dor. Mas que é a dor senão o tempo em ato?
Tudo é tempo, tudo é ato; é sendo. E nada me retrata melhor que os passos – ora tímidos, ora largos – que dão meus pés. Por isso não os corto, mas as mãos. Eram elas que me afastavam do mundo, fosse nos livros que escrevi, fosse no apalpar irrefreável de curiosidade ou busca de prazer. Hoje não escrevo, não destaco nenhuma realidade de si mesma.
Pois o que são as frases, senão tentativas fracassadas de representar realidade? Elas pretendem reapresentar o percebido no viver. Contudo, não nos retratam nada, mas criam. As frases são criadoras de realidade, de contextos infiéis e peculiares. E eram elas que me forçavam a vagar inconsciente. Por elas que buscava o que nunca conseguiriam me dar. Tonto, queria justamente o impossível, expor o que vivia, o que sentia. Mas as frases não expõem nada, e só agora percebi.
Cortei fora minhas mãos desiludido e incrédulo. Conformei-me com essa cruel condição humana que me acomete. Suporto todas as dores e vícios calado, a seco. É quando nota-se que o esquecimento é cura. A desatenção é antídoto para toda preocupação insolúvel. E se é de minha condição que nascem meus problemas, prefiro me embriagar com toda e qualquer futilidade efêmera. Que é na efemeridade que a eternidade se esvai, mesmo que aparentemente. E é na aparência que o esquecimento sobressai a toda incontornável essência.
Não mais me engana o tato. Ele, que afasta todos de tudo à distância de um braço. Sou mais próximo das coisas, mais próximo do mundo enquanto um só, puro. Pura harmonia, pura melodia. Sinto-me nota soante. Eternamente, sem objeções ou reclames. Nota coesa e linear, embora oscilante, como todo ser que se quer imortal.
Sobram-me os pés, que não são lá muito táteis, é de se assumir, embora tenham utilidades mais fundamentais. São base, mantendo-me ereto enquanto o tempo não me curva, ou a dor. Mas que é a dor senão o tempo em ato?
Tudo é tempo, tudo é ato; é sendo. E nada me retrata melhor que os passos – ora tímidos, ora largos – que dão meus pés. Por isso não os corto, mas as mãos. Eram elas que me afastavam do mundo, fosse nos livros que escrevi, fosse no apalpar irrefreável de curiosidade ou busca de prazer. Hoje não escrevo, não destaco nenhuma realidade de si mesma.
Pois o que são as frases, senão tentativas fracassadas de representar realidade? Elas pretendem reapresentar o percebido no viver. Contudo, não nos retratam nada, mas criam. As frases são criadoras de realidade, de contextos infiéis e peculiares. E eram elas que me forçavam a vagar inconsciente. Por elas que buscava o que nunca conseguiriam me dar. Tonto, queria justamente o impossível, expor o que vivia, o que sentia. Mas as frases não expõem nada, e só agora percebi.
Cortei fora minhas mãos desiludido e incrédulo. Conformei-me com essa cruel condição humana que me acomete. Suporto todas as dores e vícios calado, a seco. É quando nota-se que o esquecimento é cura. A desatenção é antídoto para toda preocupação insolúvel. E se é de minha condição que nascem meus problemas, prefiro me embriagar com toda e qualquer futilidade efêmera. Que é na efemeridade que a eternidade se esvai, mesmo que aparentemente. E é na aparência que o esquecimento sobressai a toda incontornável essência.
14.9.09
Cortei fora minhas mãos. Foi no dia em que me encontrei, no dia em que parei de vagar às cabeçadas. Ambas as mãos, as cortei sem sentir. Foi ato espontâneo da vida, do destino, que me quis assim agora. Pouco doeu, pois que mal eram aproveitadas naqueles tempos, e toda verdadeira dor é fruto de fruição interrompida.
12.8.09
Vida
Disseram da alma, de luz, de espírito
Disseram de fogo, centelhas e velas
Não há mais que cínicos velórios
Ocultos, solenemente celebrados
Tudo o que foi até então falado
Deveria ser discretamente velado
Não há nada daquilo tudo
Vida é sangue, vida é isso
Não há ópio que me iluda do mundo
Vida é dor, prazer, vida é ser
É ferida manchada e seca
Direta, grossa e óbvia
E isso tudo é tão óbvio
Não há cegos, apenas mudos
E é lamentável que não se possa fechar
Os ouvidos, como se faz com os olhos
Disseram de fogo, centelhas e velas
Não há mais que cínicos velórios
Ocultos, solenemente celebrados
Tudo o que foi até então falado
Deveria ser discretamente velado
Não há nada daquilo tudo
Vida é sangue, vida é isso
Não há ópio que me iluda do mundo
Vida é dor, prazer, vida é ser
É ferida manchada e seca
Direta, grossa e óbvia
E isso tudo é tão óbvio
Não há cegos, apenas mudos
E é lamentável que não se possa fechar
Os ouvidos, como se faz com os olhos
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